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Categorias femininas no desporto: uma conquista feminista

by | Mar 30, 2026 | Destacadas, MNG | 0 comments

As categorias femininas no desporto não são um privilégio nem uma concessão: são uma conquista histórica do feminismo para garantir a igualdade e a equidade competitiva. Durante décadas, as mulheres lutaram por um espaço próprio no desporto, um espaço onde competir em condições justas e comparáveis. Hoje, essa conquista volta a estar no centro do debate, obrigando-nos a defender com clareza por que estas categorias continuam a ser necessárias.

Estivemos caladas durante demasiado tempo. Demasiado tempo a medir cada palavra para não ofender, para não sermos rotuladas do que não somos, para não perdermos alianças que nunca foram tão sólidas como pareciam. Acabou.

Hoje dizemos o que pensamos com clareza: a decisão do COI de estabelecer critérios rigorosos para a participação nas categorias desportivas femininas é correta, é necessária e apoiamo-la. E se isso incomoda, seja bem-vinda a desconfortabilidade. É para isso que estamos aqui.

Comecemos pelo princípio: as categorias femininas existem para nos proteger

Não são uma dádiva. Não são um privilégio. São o resultado de décadas de luta de mulheres que exigiram ser vistas, reconhecidas e valorizadas no desporto. Mulheres que tiveram de lutar para que as deixassem correr, saltar, nadar e competir. Mulheres que construíram esse espaço com suor, com lesões, com sacrifício e com uma determinação que o sistema levava séculos a tentar esmagar.

E conquistaram esse espaço separado precisamente porque o mundo reconheceu, a contragosto, uma realidade que não podia continuar a ignorar: sem categorias próprias, as mulheres simplesmente não existiriam no desporto de elite e os corpos que passaram pela puberdade masculina desenvolvem vantagens fisiológicas reais, mensuráveis e documentadas. Não é opinião. Não é ideologia. É biologia: mais massa muscular, maior densidade óssea, maior capacidade pulmonar, mais hemoglobina. Entre 10 e 20% de vantagem no rendimento consoante a disciplina. Numa competição sem categorias separadas, essas diferenças não seriam anedóticas; seriam determinantes. Os pódios, as bolsas, os contratos, a visibilidade: tudo migraria para quem parte com essa vantagem estrutural no corpo. As mulheres não perderiam apenas medalhas. Perderiam o espaço inteiro. Assim tão simples.

E não estamos a inventar nada novo. O desporto separa por idade para que as crianças não compitam com pessoas adultas. Separa por peso para que ninguém enfrente alguem com vantagem física desmedida. Separa por sexo pela mesma razão: para que a competição tenha sentido, para que o esforço seja medido em condições comparáveis. Isso não é discriminação. É a base de qualquer sistema desportivo justo.

Defender essas categorias não é um ato de ódio. É um ato de justiça.

Ninguém está a proibir nada: está a regular com critério

Ouvimos repetidamente que a decisão do COI «exclui» as mulheres trans do desporto. É falso, e importa dizê-lo com clareza. O COI não proíbe as mulheres trans de participar nos Jogos Olímpicos. O que estabelece é que devem competir na categoria que lhes corresponde segundo os critérios de equidade fisiológica. Não é exclusão: é regulação. A mesma lógica que se aplica ao peso, à idade, à distância.

E aqui surge um dado que raramente aparece neste debate: os homens trans. Quando um homem trans compete sem tratamento hormonal, fá-lo na categoria feminina e ninguém protesta, ninguém convoca conferências de imprensa, ninguém exige a sua exclusão. Quando se hormona e passa a competir na categoria masculina, também não. O debate simplesmente não existe.

Porque a questão nunca foi a identidade de género: foi sempre a fisiologia. E é precisamente por isso que as normas têm de ser fisiológicas, não identitárias.

Estamos fartas de ser chamadas inimigas por defendermos o que é nosso

Há uma tática que conhecemos bem: quando as mulheres erguemos a voz para defender-mos nossos direitos, somos criminalizadas. Somos chamadas de radicais, excludentes, retrógradas. Somos acusadas de nos alinharmos com a direita, de fazermos o jogo ao fascismo, de sermos o pior do movimento. Há séculos que suportamos essa manobra de silenciamento com nomes e pretextos diferentes.

Pois bem: recusamo-nos a que defender o desporto feminino seja tratado como um crime dentro do próprio feminismo.

As atletas que falaram, as que puseram nome e rosto ao que sentem quando competem em condições que não são equitativas, foram insultadas, perderam patrocinios, foram canceladas nas redes sociais. A essas mulheres o movimento feminista deve solidariedade. Agora mesmo. Sem mais esperas.

A ciência não se vota, ouve-se

Não vamos entrar no jogo de quem grita mais alto. Vamos falar de evidências.

A investigação científica publicada em revistas especializadas é clara: a terapia hormonal com supressão de testosterona não elimina as vantagens fisiológicas adquiridas durante a puberdade masculina. Não completamente. Não nos prazos que foram manejados até agora nas normativas desportivas. A força muscular, a estrutura óssea, a capacidade cardiovascular: tudo isso persiste em níveis superiores aos das mulheres mesmo após anos de tratamento.

Isto não o dizemos só nós. Dizem-no os estudos. Dizem-no as fisiologistas do desporto. Dizem-no as próprias atletas com os seus cronómetros e as suas marcas.

Ignorar essa evidência em nome da correção política não é progressismo. É abandonar as mulheres.

Os casos de Semenya e Khelif: a complexidade que o debate merece

Não podemos falar deste tema com honestidade sem mencionar dois casos que sacudiram o desporto mundial e que foram usados, com demasiada frequência, como armas de arremesso em vez de como convites à reflexão séria.

Estes casos são genuinamente complexos e não merecem ser simplificados. Semenya e Khelif foram pessoas intersexuais (DSD com cariótipo XY) submetidas a um nível de escrutínio que nenhum atleta do desporto masculino alguma vez enfrentou. Isso é inaceitável e temos de o dizer.

Ao mesmo tempo, e é aqui que o debate exige honestidade intelectual, a presença de características fisiológicas associadas ao desenvolvimento masculino, independentemente da sua condição intersexual, coloca questões legítimas de equidade competitiva que o desporto não pode ignorar porque o sistema de categorias existe precisamente para lidar com diferenças fisiológicas, quaisquer que sejam a sua origem.

O que exigimos é uma regulação justa, transparente, baseada em evidência, e com o mínimo de intrusão possível na privacidade e dignidade das e dos atletas. O que viveram Semenya e Khelif (o escrutínio público dos seus corpos, a exposição da sua informação médica) não é um modelo. É uma vergonha que não pode voltar a repetir-se.

Nem transfobia nem racismo: não aceitamos essa armadilha

Há quem use estes casos para nos acusar de duas coisas ao mesmo tempo: transfobia e racismo. Convém desmontá-las uma a uma.

Sobre a transfobia: defender categorias desportivas baseadas na fisiologia não é negar a identidade de ninguém. As mulheres trans merecem proteção contra a violência, a discriminação e o assédio em todos os âmbitos da vida. Isso não está em discussão. O que está em discussão é uma questão específica e técnica: quais são os critérios de elegibilidade numa competição de alto rendimento. Uma coisa não implica a outra.

Sobre o racismo: é verdade que os casos mais mediáticos envolvem pessoas negras e árabes, e que o escrutínio a que foram submetidas carregou, em muitos momentos, um racismo explícito que condenamos sem reservas. Homens brancos como Elon Musk ou Donald Trump usaram o caso de Khelif para a sua agenda política reacionária com o único objetivo de atacar os direitos das pessoas transexuais e das mulheres. Isso é repugnante e nada tem a ver com equidade desportiva.

Mas denunciar o racismo com que estes casos foram tratados não é o mesmo que concluir que qualquer regulação é racista. Exigimos que as normas sejam aplicadas com igualdade, com transparência e com dignidade para todas as atletas independentemente da sua origem. Isso é feminismo. O que fazem Trump e Musk não é.

O racismo disfarçado de biologia: o mito da testosterona africana

Afirmar que as mulheres africanas têm, como grupo, níveis mais elevados de testosterona é uma afirmação sem nenhum respaldo científico. Não existe nenhum estudo rigoroso que estabeleça uma diferença hormonal sistémica vinculada às etnias africanas. O que existem são casos individuais de pessoas, algumas delas africanas, com condições médicas congénitas muito específicas, as chamadas Diferenças do Desenvolvimento Sexual (DSD), que afetam pessoas de qualquer origem étnica em todo o mundo.

A confusão entre uma variação biológica individual e uma característica atribuída a grupos humanos não é inocente: é o mecanismo clássico do racismo científico, uma tradição histórica que durante séculos utilizou a biologia para construir hierarquias entre populações, atribuindo a comunidades inteiras traços que na realidade são individuais ou simplesmente inexistentes. Afirmar que «as africanas têm mais testosterona» segue exatamente essa lógica: toma uns poucos casos mediáticos de atletas com condições DSD (condições que ocorrem com a mesma frequência na Europa, na Ásia ou na América) e converte-os numa suposta característica do continente africano.

Duas verdades que não se anulam

Sim, somos capazes de sustentar duas ideias ao mesmo tempo. O feminismo sempre o fez.

As mulheres transexuais merecem viver livres de violência, de discriminação e de assédio. Merecem acesso à saúde, ao trabalho, à habitação e a uma vida digna. Isso não está em discussão e nunca o esteve neste espaço.

E ao mesmo tempo: as categorias desportivas femininas devem proteger a equidade competitiva das mulheres. Estas duas afirmações não se contradizem. Só parecem fazê-lo quando alguém tem interesse em que não as possamos pronunciar juntas.

Recusarmo-nos a escolher entre elas não é cobardia. É coerência.

O desporto feminino começa nas raparigas: referências que importam

Este debate costuma girar em torno do desporto de elite. Mas as consequências chegam muito mais fundo. Uma rapariga que cresce vendo mulheres ganhar, competir e ser reconhecidas no desporto tem mais probabilidade de praticar desporto, de acreditar que o seu corpo é capaz, de entender que o espaço desportivo também lhe pertence. As categorias femininas não são apenas sobre medalhas. São sobre referências. São sobre o que uma miúda de dez anos entende que é possível para ela.

Na Galiza sabemos bem o que custa construir esse espaço. Passámos anos a reclamar a criação da Bandeira Feminina de Trainhas, a exigir a equiparação dos prémios entre as categorias masculinas e femininas, a lutar para que o esforço das mulleres no mar fosse reconhecido com a mesma dignidade que o dos homes. Não foi fácil. Não foi rápido. E não vamos permitir que o espaço que conquistamos (em terra e no mar) seja diluído por falta de critérios claros.

Defender as categorias femininas no desporto é defender que as próximas gerações de raparigas galegas tenham referentes, oportunidades e um espaço onde o seu esforço seja comparado em igualdade de condições. Isso é feminismo.

O desporto feminino é político. Defendê-lo também.

Às que nos acusam, às que nos chamam de tudo antes de ler: o feminismo não nasceu para ser confortável. Nasceu para dizer verdades incómodas, para defender as mulheres mesmo que isso implique enfrentar o consenso, para não se dobrar à pressão quando os direitos das mulheres estão em cima da mesa. Um feminismo que emudece quando defender as mulheres se torna politicamente custoso não merece esse nome.

Cada medalha que uma mulher ganha nos Jogos Olímpicos é o resultado de um sistema que, finalmente e ainda de forma imperfeita, reconhece que as mulheres merecemos competir. Cada categoria feminina é uma conquista política do movimento. Não vamos entregar essa conquista sem lutar.

O COI deu um passo. Não é suficiente, o debate continuará e deverá continuar a evoluir com rigor, com escuta e com o máximo respeito pela dignidade de todas as atletas. Mas é um passo na direção certa. E nós vamo-lo dizer, assinar e defender.

Porque o desporto também é nosso.

Porque as mulheres importamos.

E porque o feminismo que não defende as mulheres não é feminismo: é decoração.


Este texto representa a posição das Mulheres Nacionalistas Galegas. Convidamos ao debate rigoroso, à discordância fundamentada e à conversa honesta. O que não admitimos é o silenciamento.