Somos as Mulheres Nacionalistas Galegas (MNG), coletividade feminista galega cujo percurso, em 2026, celebra quatro décadas de história. Lançamos com orgulho e esperança renovada a nossa nova página web: um espaço de encontro, arquivo, diálogo, ação coletiva e homenagem a todas as que construíram e constroem o movimento feminista galego. Ao disponibilizar, em formato digital, o nosso arquivo de materiais produzidos ao longo destes 40 anos, criamos uma ponte entre passado, presente e futuro, e convidamos-te a atravessá-la connosco.
Desde a nossa fundação, impulsionamos reflexões e lutas que vão além das fronteiras do que significa o ser mulher em Galiza. O nosso caminhar coletivo inclui denúncias, campanhas, publicações, debates e solidariedade, sempre de braços dados com outras mulheres do mundo, mas nunca esquecendo as raízes. Hoje, a memória do movimento pulsa sob a forma de autocolantes, brochuras, manifestos, cartazes, publicações e testemunhos: ferramentas vivas, agora preservadas para todas, com livre acesso através da nossa web.
Celebramos a nova etapa digital de MNG contando quem somos, onde nascemos, como nos organizamos, por que lutamos, e o significado histórico que nossas conquistas e materiais têm para o movimento feminista galego. A web é apenas mais um capítulo na nossa longa jornada de emancipação plena para as mulheres galegas.
As origens de MNG: um feminismo montado sobre a realidade galega
No final do século XX, Galiza vivia profundas transformações. O nacionalismo galego ganhava corpo e força em setores populares, desafiando o centralismo estatal, o franquismo social e a invisibilização histórica. Nesse contexto, as mulheres, muitas já ativas em coletivos, escolas e nas lutas rurais, perceberam a urgência de criar espaços próprios, onde as experiências e opressões específicas pudessem ser discutidas desde uma perspetiva intrinsecamente galega.
Assim nasceram as MNG, em 1986, com a certeza de que a emancipação das mulheres era inseparável da emancipação do povo galego e da defesa de nossa língua, território e modo de vida. Fundadas por mulheres comprometidas, vindas de diferentes geografias e trajetórias, tecemos uma voz feminista própria e irredutível, que recusa importações acríticas de modelos de fora e ergue um feminismo de chão galego.
Feminismo galego: entre classe, nação e género
Desde início, recusámos compartimentar lutas. Nas MNG reconhecemos que a subordinação das mulheres galegas tem raízes não só patriarcais, mas também culturais, linguísticas e económicas. O empobrecimento, a migração forçada, a ruralidade, o desaparecimento da língua nos espaços públicos, tudo isto nos atravessa como mulheres de uma nação minorizada.
Por isso, propomos e praticamos um feminismo que combate, simultaneamente, o patriarcado e a opressão nacional, defendendo os direitos das mulheres galegas na sua concretude: no acesso ao trabalho, à terra, à cultura, à lingua própria e aos espaços de decisão. Desde a assembleia aberta, horizontal, às campanhas mediáticas ou combativas na rua, sempre construímos coletivamente, apostando na formação e o debate.
Arquivo MNG: memória do feminismo galego ao alcance de todas
Sabemos que as lutas das mulheres podem ser facilmente apagadas, deslocadas ou apropriadas. Por isso, preservar e partilhar a nossa memória é ato profundamente político. Depois de anos a recolher, digitalizar e sistematizar autocolantes, brochuras, cartazes, publicações e materiais formativos, disponibilizamos agora esse legado na web, ao alcance de todas.
O arquivo das MNG é, por si só, um mapa das transformações pelas quais o feminismo galego passou ao longo de quatro décadas: os temas, as estratégias, as campanhas, as vozes, as imagens e os sonhos espelhados nos materiais criados coletivamente. É matéria-prima para investigação, ensino, ativismo e inspiração, recurso aberto para todas as que querem conhecer de dentro o percurso do movimento feminista na Galiza.
O acervo disponibilizado inclui a totalidade das nossas publicações editadas ao longo dos anos: revistas, manifestos, brochuras informativas, dossiês temáticos, comunicados de campanhas… Encontrarás debates e denúncias sobre antimilitarismo, antipatriarcado, violência de género, direitos reprodutivos, precariedade, espaços de independência, visões feministas sobre globalização e Europa, entre outros temas centrais.
Estão também preservados autocolantes, cartazes de campanhas históricas, materiais pedagógicos para escolas, cronologias de atividades, relatórios de mobilização e fotografias de eventos marcantes. Este arquivo funciona como memória viva do movimento feminista a partir da Galiza, mas também como ferramenta prática para novos coletivos, estudantes ou investigadoras.
Ao digitalizarmos o nosso arquivo, damos corpo a um dos princípios centrais das MNG: o conhecimento é coletivo, histórico e aberto. Queremos que outras mulheres se reconheçam na nossa luta, aprendam com os acertos e erros, se sintam apoiadas pelo rasto que deixamos e avancem ainda mais longe. Resgatando a história das mulheres e dando-lhe visibilidade, alimentamos novas lutas e permitimos que nenhuma seja silenciada nem relegada à margem.
40 anos de lutas: princípios e ações que marcam a diferença
Antimilitarismo, antipatriarcado e defesa radical dos direitos das mulheres galegas
Nas publicações e iniciativas que agora disponibilizamos, salta à vista como MNG sempre ligou os debates feministas às lutas sociais mais vastas. O antimilitarismo, por exemplo, articula-se na recusa da guerra, mas também na denúncia da violência explícita e simbólica que atravessa quotidianos de mulheres, desde a casa ao espaço público.
O antipatriarcado, para nós, concretiza-se tanto na crítica ao poder masculino nas instituições como na resistência aos papéis convencionais impostos a cada galega, seja jovem, idosa, migrante, do campo ou da cidade. Todas as formas de violência contra as mulheres foram, e são, combatidas em todas as frentes: jurídica, política, mediática, cultural e relacional.
Os direitos reprodutivos estiveram no centro da agenda das Mulheres Nacionaliostas Galegas desde sempre, com campanhas pela legalização do aborto, pelo acesso universal à saúde integral, educação sexual e liberdade de decisão para todas, independentemente da sua origem ou situação económica.
Defesa da língua e cultura galega: o feminismo também fala galego
Outro eixo distintivo do nosso percurso é a defesa da cultura e língua galega. Para Mulheres Nacionalistas Galegas, utilizar o galego é reivindicação identitária e ato feminista. Lutamos contra o sexismo presente nas políticas linguísticas, promovendo a linguagem não sexista e resgatando narrativas de mulheres que a história oficial calou.
Entre os materiais agora arquivados, há projetos de recolha de testemunhos, revistas centradas em biografias femininas e oficinas sobre direitos das mulheres galegas, instrumentos essenciais para que o feminismo galego possa afirmar-se em todas as suas dimensões, e para que o galego seja lugar de voz, criação e liberdade para todas.
Rede, formação e solidariedade feminista
O sentido comunitário e a aposta em múltiplas redes foram sempre a marca do nosso método. Organizamos debates, formações, intervenções em escolas, universidades, centros sociais; criamos e consolidamos redes de apoio entre mulheres, defendemos a interseccionalidade e apostamos em alianças com diferentes coletivos.
Os materiais pedagógicos, cartazes de campanhas, e relatórios de atividades agora acessíveis pelo arquivo digital ilustram décadas de construção paciente da solidariedade feminista. São espelho da multiplicidade do movimento, e receita para multiplicar forças por todo o território.
MNG nunca permaneceu fechada sobre si mesma. Desde a sua participação ativa na criação da Marcha Mundial das Mulheres na Galiza, à participação em manifestações, simpósios, intercâmbios e campanhas globais, sempre defendemos o feminismo galego como corrente universalista, crítica ao colonialismo, à globalização neoliberal e ao fundamentalismo.
O diálogo com o movimento internacional emerge tanto das ações arquivadas quanto das parcerias visíveis nos materiais agora disponíveis, demonstrando que é possível construir identidades fortes, abertas, solidárias e inovadoras.
MNG: referência viva do feminismo na Galiza
A trajetória arquivada e celebrada na nova web confirma o papel fundamental que Mulheres Nacionalistas Galegas desempenhou na consolidação de uma agenda feminista na Galiza moldada às necessidades reais das mulheres galegas. Propusemos alternativas à secundarização, combatemos a invisibilidade, influenciamos debates públicos, políticas públicas, códigos culturais e modos de pensar o lugar das mulheres na Galiza contemporânea.
As campanhas lançadas, a influência crescente nos movimentos sociais, a entrada nos espaços institucionais, tudo isto representa o impacto das MNG na abertura de portas e janelas para a participação criadora das mulheres, sem tutelas nem concessões.
Nestes 40 anos, multiplicaram-se outros grupos, associações, coletivos e projetos inspirados pelos princípios, métodos e conquistas das MNG. A rede criativa da luta feminista galega amplia-se todos os dias com novas vozes, desafios e sonhos, sempre ancorados numa herança de luta que agora está conservada e partilhada para reforçar estes vínculos.
Hoje, graças à web e ao arquivo aberto, cada mulher galega, jovem ou anciã, pode encontrar-se neste percurso, reconhecendo-se como protagonista no grande mosaico da emancipação, aprendendo, dialogando e inovando desde a própria realidade.
A história que hoje partilhamos é tudo menos passado encerrado. É presente em construção e, sobretudo, promessa de futuro: de uma Galiza feminista, livre, plural e aberta à solidariedade internacional. Ser MNG é alimentar este fogo, sem temer revisitar caminhos, corrigir rumos, ouvir e dar vez às que ainda vêm.
O lançamento da nova web e do arquivo digital consagram a MNG como referência firme, memória coletiva e inspiração combativa para as próximas décadas de luta feminista em Galiza e para todas as que, em qualquer parte, sonham uma sociedade onde seja possível ser mulher sem medo, com liberdade e dignidade.
Um convite à ação e à memória viva
Ao completarmos 40 anos de existência, reafirmamos: somos história, mas sobretudo presente e futuro. Orgulhosas, disponibilizamos nosso arquivo na web para que a memória do feminismo galego não se perca nem se apague, mas se torne fermento de novas lutas e horizontes.
O nosso convite é claro: vem conhecer, explorar, utilizar e multiplicar estes materiais, junta-te aos debates, ações e sonhos de Mulheres Nacionalistas Galegas e de todas as mulheres galegas que continuam a batalha diária contra todas as formas de opressão. A Galiza feminista, combativa, transformadora, faz-se agora, com todas, sem deixar ninguém para trás.
O futuro é feminista, galego, solidário. Que esta nova etapa, ancorada na memória viva, seja também semente de radicalidade, criação e afirmação coletiva. Acende connosco a chama da mudança, porque, com memória e ação, podemos tudo.


