No 11N saímos à rua pelos salários, pela habitação, pelos preços, pela vida digna. São exigências justas e urgentes. Mas só são completas se contemplarem a realidade das mulheres que, sendo metade da população, continuamos a ser as mais empobrecidas. Por isso, hoje reivindicamos que a greve geral se faça com perspectiva feminista, da primeira à última linha, tendo em conta o que acarreta a divisão sexual do trabalho na nossa sociedade.
A precariedade nos salários e na habitação também tem nome de mulher
Um aumento salarial geral não resolve a desigualdade se não chegar às profissões feminizadas, historicamente desvalorizadas e mal pagas: cuidados, limpeza, atenção à infância, trabalho doméstico. Uma política de habitação que não pense nas famílias monoparentais, maioritariamente encabeçadas por mulheres, deixa a meio caminho a sua própria promessa. E uma baixada de preços que ignora os custos reais de criar e de cuidar não toca na raiz do problema. As mulheres não vivem a precariedade de forma abstracta: vivem-na nos salários mais baixos, nos contratos mais instáveis e nas horas de trabalho não remunerado que ninguém contabiliza.
Cuidados públicos, profissionalizados e bem pagos
Uma vida digna também exige um sistema de cuidados público, profissionalizado, com pessoal suficiente e com salários decentes. Os direitos das mulheres não são negociáveis, e o direito a cuidar e a ser cuidada sem que isso signifique pobreza faz parte desse horizonte. O reconhecimento formal não basta: uma lei que nomeia o direito aos cuidados não garante, por si só, que esse direito se cumpra na prática.
O sistema de cuidados erosiona-se pelos princípios capitalistas do máximo benefício e do custo mínimo. Erosiona-se pela privatização e pela renúncia a tratá-lo como o que é: um serviço público que garanta a dignidade da vida das pessoas em qualquer etapa ou condição. Essa erosão raramente chega de forma explícita. Chega com orçamentos insuficientes, com equipas que nunca se completam, com listas de espera que se normalizam até deixarem de parecer uma emergência. Essa erosão silenciosa afecta quem precisa de cuidados, hoje desprotegida por uma rede insuficiente. Afecta as mulheres, que assumem a maior parte do trabalho de cuidar sem reconhecimento nem remuneração. Afecta as trabalhadoras dos sectores de cuidados, maioritariamente mulheres, que sustentam esse trabalho com salários que não correspondem à responsabilidade que assumem. E afecta toda a sociedade: uma democracia que não cuida de quem cuida falha com a sua própria base.
O empobrecimento como violência económica estrutural
Quem sustém a vida sustenta também a economia e a democracia real, ainda que esse trabalho continue invisibilizado e mal pago. O tempo não remunerado dedicado aos cuidados empobrece as mulheres que o assumem, hoje e também na jubilação. Esse empobrecimento não é um efeito colateral acidental: é uma forma de violência económica estrutural. Quando uma mulher depende economicamente de outra pessoa porque o trabalho de cuidar lhe consumiu o tempo, a carreira e a independência, perde também margem real para decidir sobre a sua própria vida.
O avanço da extrema direita ameaça estes direitos
Este é precisamente o terreno que a extrema direita escolhe para avançar. Nomeia os cuidados como assunto privado e familiar, nunca como responsabilidade pública, e com isso devolve às mulheres, em silêncio, a carga que o Estado deveria assumir. A ofensiva contra as políticas de igualdade e os retrocessos que a extrema direita promove por toda a Europa não são uma ameaça abstracta: traduzem-se em menos recursos para os cuidados, menos autonomia económica para as mulheres e mais dependência forçada. Defender um sistema público de cuidados é também fazer frente a esse projecto político.
O 11N é de todas, ou não é
Defender o que já existe, sustentar as condições que permitem exercê-lo e avançar para um sistema efectivamente público são três frentes que se jogam ao mesmo tempo, não etapas sucessivas. No 11N a greve geral também é uma greve pelos cuidados e pela autonomia económica das mulheres. Junta-te à mobilização e exige salários, habitação e preços que tenham em conta a realidade das mulheres, e um sistema público de cuidados que sustente quem cuida e quem precisa de cuidados.
O 11N também é nosso. A greve geral também é feminista.
Mulheres Nacionalistas Galegas


