Este ano, as Letras Galegas homenageiam Begonha Caamanho. Escritora. Jornalista. Feminista declarada e militante. Uma mulher que entendeu que a língua e a luta política são inseparáveis e que fez da palavra uma ferramenta de transformação social.
Ao redor desta homenagem, porém, repete-se um padrão conhecido: o de celebrar uma figura recortando as suas arestas mais incómodas. O de aplaudir a escritora enquanto se silencia a ativista. Nas MNG, conhecemos a Begonha completa: a ativista, a militante, a mulher que construiu connosco. É essa Begonha que aqui reivindicamos.
Uma voz que não cabe só nos livros
Begonha Caamanho integrou as Mulheres Nacionalistas Galegas desde os inícios dos anos noventa. A sua participação foi constante, comprometida e criativa. Nos textos que publicou nas páginas do DeliberadaMente, a nossa revista, Bego não escrevia para cumprir um trâmite: escrevia para despertar consciências, para difundir a perspectiva de género e para articular um feminismo ligado ao anticapitalismo, ao antimilitarismo e à solidariedade internacional.
Naqueles anos, a militância feminista nas MNG não era um exercício abstracto. Era presencial, colectivo e exigente: reuniões, documentos, mobilizações, debates que duravam horas e construíam posição. Begonha estava nesse trabalho quotidiano com a mesma intensidade que punha na escrita. Para ela, a teoria e a prática não eram dois territórios separados. Eram a mesma coisa vista de dois ângulos.
No DeliberadaMente de julho de 1999 deixou formulada com toda a clareza a posição que definiria a sua vida:
«Nem umha só forza política poderá afirmar que conta com a soluçom para os problemas deste país, se nom a tem á problemática e aos direitos das mulheres galegas. […] Quem nom dé respostas claras a estes problemas nom está em condiçons de afirmar que tem um projecto com futuro para o nosso país.»
— Begonha Caamanho, DeliberadaMente, n.º 1, julho de 1999
Estas palavras não eram retórica: eram programa. Para Begonha, a luta feminista não era uma demanda sectorial, mas o eixo desde o qual se constrói qualquer sociedade justa. E dizia-o desde dentro do movimento, com a autoridade de quem construía organização, não de quem a observava de fora.
Um feminismo sem concessões
O feminismo de Begonha não era ornamental. Era estrutural. Entendia a opressão das mulheres como parte de um sistema mais amplo de dominação e nomeava-o com precisão e sem eufemismos. Num dos seus textos em DeliberadaMente, escrito na memória de Olimpia de Rianxo, vítima de violência de género, partia dos dados para chegar à análise: uma morte a cada quatro dias, dezasseis mil denúncias por maus-tratos, exploração económica, pressão cultural. E concluía:
«Nom se trata dum feito ilhado, de acçóns individuais sem conexons entre elas. […] É o dumha sociedade enferma na que o 50% da populaçom dedíca-se a exterminar à outra metade.»
— Begonha Caamanho, «Triste é o cantar que cantamos», DeliberadaMente
Begonha recusava a linguagem que dissolve a responsabilidade. As mulheres não morriam: eram assassinadas. A violência não era «de género» num sentido abstracto: tinha agente, tinha nome, tinha estrutura. Essa precisão no uso das palavras não era estilo literário. Era posição política.
Essa mesma lucidez aplicava-a à análise institucional. Em 1999, num texto sobre as quotas e a presença das mulheres nos partidos, desmontava o reformismo: defender a paridade numérica sem combater as estruturas do poder era construir um espelho de normalidade falsa. E escrevia-o com toda a clareza:
«Temos que superar o discurso da paridade no poder para reclamar a destruiçom desse poder que nos afoga. Temos que deixar de reivindicar mulheres para exigir feminismo.»
— Begonha Caamanho, «Mulleres na política», DeliberadaMente, 1999
Ser mulher não significa ser feminista. Ocupar um cargo não garante fazer política feminista. Begonha distinguia com rigor entre representação formal e transformação real e não estava disposta a aceitar a primeira como substituta da segunda. Essa capacidade de articular dados concretos com análise estrutural, sem ceder ao discurso suavizado, é uma das marcas mais definitórias da sua escrita.
Da militância à palavra literária
Para quem a conhecemos, o salto de Bego para a narrativa não foi uma surpresa. Foi continuidade. Em 1994, num texto sobre o desemprego, articulava em galego-português a análise económica com a luta feminista. A crise não era um problema neutro: era um mecanismo de retrocesso histórico que ameaçava devolver às mulheres à dependência e ao trabalho doméstico não remunerado. O mesmo olhar que denunciava isso nas páginas do DeliberadaMente era o que, anos mais tarde, reescrevia os mitos clássicos para devolver às mulheres a sua própria história.
A escolha da língua também era parte dessa continuidade. Begonha escrevia em galego-português os seus textos nas publicações das MNG. Para ela, a língua não era um veículo neutro: era uma posição política. Escrever em galego-português era afirmar a identidade linguística da Galiza, recusar a subordinação cultural e inscrever o feminismo galego numa tradição própria, com raízes e genealogia.
Para Begonha, a literatura era outra forma de conhecimento, de liberdade, de ação. Não uma evasão da realidade, mas uma forma de a transformar desde dentro. As suas personagens literárias são filhas diretas dessa prática: mulheres que falam entre si, que questionam o poder, que recusam ser notas a pé de página da história dos heróis. Por isso, a sua obra literária e o seu ativismo feminista não podem ser lidos em separado: são dois registos da mesma voz.
O silenciamento como forma de apropriação
Reivindicar a Begonha completa é também um acto político. Quando se celebra uma figura eliminando as dimensões que resultam incómodas para quem organiza a celebração, não se está a homenagear: está-se a domesticar.
O ativismo feminista de Begonha nas Mulheres Nacionalistas Galegas, a sua militância independentista, a sua presença em espaços de luta coletiva fora dos circuitos institucionais: tudo isso forma parte do que ela foi. Não é um apêndice biográfico. É o núcleo desde o qual escreveu, pensou e agiu.
Domesticar uma figura é também um ato de poder: decide-se o que fica e o que se apaga, o que é celebrado e o que é incómodo. A Begonha que denunciava a prostituição como sistema de exploração, a que questionava os partidos progressistas por perpetuarem as estruturas patriarcais, a que escrevia que as mulheres estavam em guerra e que ninguém podia dizer que não sabia: essa Begonha não cabe numa homenagem que precise de ser aceitável para todas as partes. E é precisamente essa Begonha a que não pode desaparecer.
Silenciar esse núcleo não é uma omissão inocente. É uma escolha.
Levar a Begonha connosco
Para quem a leu, para quem a descobre agora, para quem sabe que há nomes que têm de seguir vivos: a Bego que conhecemos nas MNG foi a da mulher que entendeu que a língua galega, o feminismo e a transformação social não são três causas distintas, mas uma só luta com múltiplas entradas.
A memória de Bego não é um arquivo. É uma ferramenta. O seu método, a sua precisão no uso das palavras, a sua recusa a aceitar espelhos de normalidade falsa: tudo isso continua a ser necessário. Os problemas que ela nomeava no DeliberadaMente nos anos noventa não desapareceram. Mudaram de forma, adaptaram-se ao discurso do tempo, aprenderam a falar a linguagem da igualdade formal. Mas continuam a precisar do mesmo olhar que ela exercia: rigoroso, direto, sem concessões.
A sua herança não está só nos livros. Está nas organizações que ajudou a construir, nas mulheres com quem partilhou a militância feminista e nas ideias que semeou nas páginas do DeliberadaMente e que continuamos a cultivar.
Lembrar bem é também resistir.


